Opinião: A insegurança em relação à própria masculinidade faz com que alguns sintam necessidade de ser cruéis com as mulheres

Rute Barbosa, presidente da Associação Cultural Rock Guarulhos e da União Brasileira Mulheres de Guarulhos, demonstra neste artigo repulsa pelos comentários que tomaram conta das redes sociais nos últimos dias, manifestados por roqueiros em relação à saída da vocalista e baixista Fernanda Lira e da baterista Luana Dametto da banda Nervosa. Confira:

Por Rute Barbosa

Misoginia, em resumo, significa ódio à mulher. Esse tipo de repulsa e a ideia da inferioridade feminina ficou evidente pelos comentários que muitos roqueiros fizeram com o anúncio da saída da vocalista e baixista Fernanda Lira e da baterista Luana Dametto da banda Nervosa, anunciada no último sábado (25). A quantidade de relatos misóginos e machistas só revela o que nós, mulheres que estamos na cena, no palco ou no backstage, conhecemos bem.  A insegurança em relação à própria masculinidade faz com que alguns sintam necessidade de ser cruéis com as mulheres. Já vivenciei isso em reuniões em que a última palavra não pertencia a algum deles, gritos durante um evento que estávamos organizando e  comentários do tipo:  “Essa Associação, por ser de rock,  merecia uma presidente mais magra e mais gostosa”  ou ainda o que ouvi sobre a cantora Pitty : “ A última vez que a vi  no palco já estava velha pra isso, cheia de curvas (extras) por isso deve ter ido cantar outro tipo de música, não combinava mais!”. Posso, com tudo isso que vivo e ouço, concluir o que o sucesso da banda Nervosa provoca no universo masculino. Além disso, pesa também o engajamento político de suas integrantes, num momento no qual o conservadorismo mais se acentua.

Esse tipo de repúdio à mulher vem desde a antiga Grécia e, infelizmente, nem o mundo do rock está a salvo desse ranço autoritário e do ódio ao posicionamento feminino. Que o diga os Raimundos: “No coletivo o que manda é a lei do pau/quem esfrega nos outros/quem não tem só se dá mal”. Pontua o trecho de uma de suas músicas. Outros ritmos musicais também destacam essa intolerância. “Mas se ela vacilar, vou dar um castigo nela/ vou lhe dar uma banda de frente/quebrar cinco dentes e quatro costelas”, cantarola Zeca Pagodinho em um de seus pagodes. Até o famoso poeta Noel Rosa, num de seus sambas, incitou esse tipo de violência: “Mas que mulher indigesta/merece um tijolo na testa”.

Os comentários feitos em redes sociais após o anúncio da saída das meninas da banda reforçam outro traço da misoginia, a ridicularização. Esse é o ato de ter prazer com o sofrimento e a humilhação da mulher, seja produzindo-o ou o presenciando. Machismo, oportunismo chauvinismo, preconceito e inveja do sucesso de uma banda que já tinha, inclusive, uma turnê agendada à Europa este ano.

Sonho com o dia e, principalmente, luto para que essas e outras imposições do patriarcado deixem de ser costumeiras e que reflexões como está não sejam mais necessárias.

Sei que esse dia ainda está longe, quando a saída de um homem de qualquer banda é considerada natural e profissional, enquanto a saída de uma mulher signifique para alguns que ela tenha que enveredar apenas pela vida sexual.

Portanto, sigo sem arredar os pés do lugar por nós conquistado e sem arredar os pés de conquistarmos nosso espaço de igualdade de direitos, todos os direitos.