Mulheres do Rock: elas são belas, elas são feras

Rock na veia, sangue nos olhos, força e garra na hora de empunhar microfones e instrumentos e vociferar: rock é coisa de mulher, sim! Em cima de um palco, na administração de casas de shows e iniciativas coletivas, na organização de grandes e renomados festivais, no comando de bandas e mais bandas, elas, poderosas, de salto alto, batom e exibindo extrema competência mostram que toda a luta e enfrentamento para fazer valer a voz feminina sempre valeu e sempre valerá a pena. E como!

Presença marcante nas mais variadas vertentes, do pop rock ao extremo, mulheres com as mais variadas trajetórias dividem conosco um pouco de suas histórias sobre o que é ser mulher, mãe, companheira, roqueira. E quem as olha assim de longe, no auge da satisfação de ver seus projetos lograrem o merecido sucesso, não imagina o quanto foi difícil chegar ali.

Por isso, antes de duvidar da competência ou habilidade de uma mulher diante de um projeto no qual empenham todo o conhecimento acumulado em suas trajetórias pessoais, pare e reflita! Reconhecer que as mulheres são muito boas no que fazem, valorizar a apoiá-las em seus ideais só vai ajudar na construção de um mundo menos violento, justo e com muito mais rock’n’roll.

Quando estou no palco, eu sou Música –  Aya Maki 

Foto: Leandro Almeida

Música não tem gênero masculino ou feminino. Rock, punk, metal, não importa. Existem pontos de vista diferentes, a forma de perceber, conceber e se expressar é uma particularidade de cada um. Quando me perguntam sobre como eu me sinto tocando no Harppia, que originalmente era uma banda exclusivamente com integrantes homens, eu digo que me sinto como um deles, mas isso não significa que eu esteja renegando meu lado feminino, de forma alguma, nessas horas para mim não existe o gênero masculino ou feminino, todos nós somos apenas o que somos: músicos. Todo mundo gosta de jogar com as emoções já que nós mulheres temos nosso lado emotivo muito aflorado. Eu procuro canalizar esse turbilhão de emoções na minha guitarra, e parto para cima. Não fico chorando, lamentando pelos cantos; ao invés disso, eu pego minha guitarra e fico treinando, estudando, compondo. Jamais deixo as pessoas, sejam homens ou mulheres, me derrubarem. Quando estou no palco, eu sou Música. Aya Maki, guitarrista da banda Harppia

Vivo a música 25 horas por diaCatia Rock

Foto: Edgar Franz (Bolívia)

“Falar da cena do rock sem falar de nós mulheres é impossível. Somos autênticas, raras, guerreiras, cuidamos de tudo ao mesmo tempo, da casa, dos filhos, do marido, trabalhamos fora e ainda temos tempo para viver e respirar o rock’n’roll. Isso é único, é só para as raras. Vivo a música 25 horas por dia, sou do rock, mas também sou muito eclética, vivo todas as vertentes da música e valorizamos todas as mulheres com o Programa Todos os Tons que é voltado para a mulherada. Costumo dizer que sou o lado B do Bolivia Rock, meu amado, e juntos a gente vai vivendo e eternizando os momentos da arte com a fotografia e com a rádio,  uma energia única que faz bem e que permanece aqui para nós. A mulher é muito importante em muitos sentidos, batalhamos diariamente, nunca desistimos, estamos sempre lutando com um sorriso no rosto, um batom, a gente é isso, charme, Deus caprichou na hora de fazer a mulher. E o nosso compromisso é esse, fazer acontecer, não deixar a cena acabar nunca, juntar a galera, o rock está na nossa veia”.  Catia Rock, radialista e apresentadora do Programa Todos os Tons, da webradio Rock Nation

Tocar é transpor nossa força femininaNeila Abrahão

Foto: Carla Maio

“O furor de tocar um instrumento é algo que transcende a alma, uma linguagem espiritual, uma dádiva ter o dom e poder executar um instrumento. Transmitir os sons para as pessoas é como se tivéssemos falando com a alma o espírito delas. Claro, não basta ter dom e talento ,é necessário muito estudo e dedicação para tocar um instrumento com competência e qualidade. É preciso ter disciplina de estudo, ter garra, amar o que faz, isso serve, claro, para tudo na vida e, na questão “tocar um instrumento“, também. Nós mulheres temos a sensibilidade aflorada por natureza, e unir essa sensibilidade na hora de compor e tocar com competência é uma grande oportunidade que temos de transpor nossa força feminina”. Neila Abrahão, professora de música e guitarrista da banda Valentine

Rock’n’roll é a minha religiãoGigi Jardim

“Eu sou a Gigi Jardim e eu gosto de dizer que eu sou puro rocker: produtora, roqueira, eu respiro rock’n’roll, eu vivo rock’n’roll, é a minha religião, tudo aquilo que eu acredito. É muito difícil ser roqueira num mundo machista, feito por homens e para os homens. O dia 8 de março, no qual celebramos o Dia Internacional da Mulher, é muito especial porque todas às vezes que eu consigo entrar dentro de uma instância de rock’n’roll por mim mesma, sabendo que nunca precisei na vida fazer nenhum teste com conotação sexual para estar onde estou e  ter o reconhecimento que eu sei que eu tenho, eu me sinto muito feliz. Ser mulher é um privilégio, é um prazer e eu não queria ser outra coisa nessa vida, espero não ter que ser outra coisa numa outra”. Gigi Jardim, produtora

“Olá, aqui quem fala é a Deca, eu sou mulher!”Andressa Castelhano

Não é fácil respirar o rock’n’roll, principalmente para mim que tenho a preferência pelo heavy metal, que é um ambiente mais fechado, com um público selecionado, específico. Embora eu tenha grande ajuda de amigos e parceiros de grande peso, que estão presentes na correria do dia a dia e sem os quais certamente seria muito mais difícil, a responsabilidade de ser a organizadora do Guaru Metal Fest é ao mesmo tempo complicada e satisfatória.

Na página do Guaru Metal Fest no Facebook, costumo receber mensagens de bandas que, ao fazer contato, logo dizem: “e ai, cara, tudo bem contigo?!”, eles mandam as mensagens pensando que eu sou um homem, como se o Guaru Metal Fest fosse de fato organizado por um homem. Às vezes eu ignoro; noutras, eu respondo: “olá, aqui quem fala é a Deca, sou mulher!”. Em outras situações, quando entro em contato com alguma banda para tocar no evento, os músicos costumam se surpreender: “nossa, o Guaru é organizado por uma mina?” Sim, gente! O Guaru Metal Fest é organizado por uma mina, ou vocês pensam que só homens seriam capazes de organizar o festival? Por outro lado, tem um pessoal que vem e elogia: “Poxa, que legal, você é a Deca do Guaru, meu, você faz muito pelo underground nacional, um super evento conhecido por ai”.

Nós mulheres, sabemos que reconhecimento não é tudo. O que nós precisamos ainda é de mais apoio, e isso é o que vai garantir que o Guaru não chegue ao fim. Às vezes, eu sinto que rola uma discriminação pelo fato de eu ser mulher, mas isso não me incomoda. Não entro em discussões ou demonstro revolta, porque entendo que aqueles que não são a favor do que eu faço, ou que acham que outra pessoa do gênero masculino deveria estar ali para fazer o meu trabalho (muitas vezes desconsiderando que fui eu quem criou o evento)  essas pessoas não vão mudar de opinião com brigas ou discussão. Isso não existe. Então, minha opção é ignorar. Esses são desafios que a gente sempre tem que lidar e vencer, e no fundo sinto bastante orgulho de mim, pois apesar de reconhecer minhas limitações, sobretudo na tomada de certas posições com algumas bandas, eu sinto extrema satisfação. Eu posso dizer que já tive mais custo com o Guaru do que com meus próprios filhos, costumo dizer que o Guaru é meu 4º filho, meu filho mais caro. Andressa Castelhano, produtora do Guaru Metal Fest

Longa caminhada de inversão da mentalidade machistaRute Barbosa 

Foto: Cesar Franciolli

Estar no mundo do rock e ter, por vezes, uma postura masculinizada, reflete a necessidade de ter as coisas conquistadas com luta, diferente dos homens aos quais tudo pertence, “naturalmente”.

Recentemente foi publicado o relatório da União Brasileira de Compositores (UBC) que mostra que, em 2017, as mulheres lucraram 28% a menos do que os homens. Essa é uma notícia que como tantas outras comprovam a desigualdade que temos que enfrentar. Mas, como nem tudo é espinho o mesmo estudo revela que, de 2015 a 2017, houve um aumento de 53% no número de inscrições de artistas femininas na instituição.

O exercício do patriarcado nosso de cada dia se expressa em conversas que ouvimos nos bares e reuniões como: ‘Mulher não está nas bandas porque não quer’ nós damos espaço!

Dizer que o espaço nos é dado revela a cultura imposta desde a nossa infância de como devemos nos comportar e principalmente a qual gênero pertence cada espaço. A cena rock é considerada masculina e por mais que as falas de alguns menos conservadores tentem ser mudadas, sabemos que é longa a caminhada de inversão da mentalidade.

Como idealizadora e Presidenta da Associação Cultural Rock Guarulhos, acredito na importância de dar visibilidade e valor à participação e atuação de todas as mulheres do rock. Rute Barbosa, Presidenta da Associação Cultural Rock Guarulhos

Mulher e roqueira, eu já era tachada como “a esquisita”Marli Abduch

Meu nome é Marli Abduch, sou fotógrafa, mãe, roqueira, zeladora do meu prédio, cozinheira. Como brasileira, tenho que ter vários empregos para conseguir me manter. Costumo brincar que meu primeiro emprego foi o rock’n’roll, pura diversão! Aos 5 anos, fui apresentada pelos meus irmãos àquela que, até hoje, é a banda do coração: o Kiss. Por volta dos 15, conheci as bandas nacionais, o Made in Brazil, Centúrias, Harppia, Golpe de Estado, e tantas outras mais que gosto e acompanho até hoje. Daí, não parei mais de ouvir bandas de várias vertentes do rock’n’nroll. Então, com 13, 15 anos, por ser mulher e ser roqueira, eu já era tachada como “a esquisita”. Frequentava a Woodstock e só ia para casa quando o Walcyr Chalas me expulsava de lá. Conforme fui crescendo, me dividia entre o trabalho e o rock’n’roll, e sempre curtia os shows, na época em que eles eram acessíveis e os preços não eram abusivos: Faith no More, Sepultura e tantas edições do Hollywood Rock.

Me formei em técnico em Publicidade, o que me ajudou bastante com a fotografia. Há 4 anos, redescobri novos amigos no rock’n’roll, várias bandas autorais e isso fez com que eu pegasse a câmera para fotografar “meus amigos”, pessoas admiráveis que têm banda. Isso também porque eu preciso trabalhar, preciso de grana para pagar as contas, comecei a ganhar um direito extra e a fazer cursos, e a coisa começou a dar certo. Cada dia mais apaixonada pela fotografia e pela música, administro a maternidade, incentivando meu filho a conhecer e ouvir coisas boas, a ter opinião e senso crítico em relação ao que tá rolando.

As dificuldades para uma mulher roqueira e fotógrafa são imensas. O rock’n’roll é mesmo um Clube do Bolinha, às vezes, sinto dificuldade de me aproximar das bandas, o equipamento fotográfico é muito pesado, são quase 2 quilos, e se você ficar 8 horas em pé, no final a sensação é de que máquina está pesando 10 quilos. O que me mantem firme é a ação, o movimento, quanto mais carismática a banda, melhor saem as fotos. Nós mulheres sempre seremos as roqueiras esquisitas, a cada dia tomando mais espaço, fazemos tudo tão bem quanto os homens, não me importo com rótulos, acredito que sou meio ET, se vierem me buscar, é resgate. Marli Abduch, fotógrafa