Perfil: Juan De Las e as sem fronteiras da música

Rock, música brasileira e latina. A impressão que temos ao ouvir suas músicas é que Juan De Las é um artista que não conhece limites nem fronteiras. Muito embora o rock o tenha trazido para o mundo da música, ele sempre viu muita qualidade em outros gêneros musicais. Em um contexto musical que mistura Led Zeppelin, Deep Purple, Queen, Santana, bem como Chico Buarque, Caetano, Gil, Paralamas, e também Calle 13, Jorge Drexler, Chico Trujillo, Fito Paez, Los Tres, Soda Stereo, entre tantos outros, Juan De Las cria sua identidade sonora, pautando-se sempre pela diversidade de suas raízes.

Em 2018, Juan De Las lançou o EP ‘Eu For Ia’ (Johnny De Las), com três músicas. Produzido e gravado por ele mesmo em seu próprio Home Studio, o EP saiu em mais de 90 plataformas de streaming pelo selo CLAM Discos, além de uma pequena tiragem em CD. Também gravou participação especial no álbum do Luneta Vinil, fez violão e guitarra na faixa ‘Gente’, e em duas músicas da cantora de Anime, Bianca Aguiar. Com a banda Instinto Coletivo, gravou dois EPs, um álbum e fez participação em quatro coletâneas.

A quarentena imposta como forma de frear a contaminação pelo Covid-19 pegou Juan em meio à produção de material para o novo álbum, que vai contar com dez faixas. Isso fez com que ele desse um breque no projeto para que possa produzi-lo com os seus parceiros, Los Malditos, Fr3elex Machado e Victor Cali.

Para conhecer o trabalho e saber mais sobre Juan De Las, acesse:

Facebook: https://www.facebook.com/juandelasoficial/

YouTube: https://www.youtube.com/juandelas

Instagram: @juandelasoficial

Spotify: https://open.spotify.com/artist/3qjwAGzs4iYKbVkfUCnat7

Eu sou da América do Sul

Juan De Las, nome artístico de Juan Francisco Gonzalez Morales, nasceu em Santiago do Chile, em outubro de 1982. Aos 37 anos,  o caçula de três irmãos julga estar “velho pra caramba”. Ele Tinha apenas 5 anos quando chegou ao Brasil, entre o Natal e o Ano Novo de 1987, a viagem não abandonou sua memória, o desembarque na Rodoviária do Tietê, a viagem feita sozinho com a mãe, o pai que chega semanas depois com seus irmãos porque não havia passagens disponíveis para todos viajarem juntos.

Guitarra e violão são seus principais instrumentos, mas também toca um pouco de teclado, contrabaixo e bateria. “Meu principal estudo musical veio do professor Titah Brown. Meu mestre. O melhor guitarrista que já conheci, músico da banda Chernobyl nos anos 90. Tudo que sei de música devo a ele. Fiz aulas particulares, mas não regulares. Começava um período e parava. Poderia ter aproveitado mais. Também me inscrevi no Conservatório de Guarulhos para estudar piano. Fiquei por dois anos, mas achava que o curso era muito devagar. Entregavam o conhecimento a conta gotas, daí larguei”.

Com composições que esbanjam sensibilidade, Juan De Las possui uma forma muito particular para falar das relações pessoais. “Acabo falando muito sobre mim, uma crônica de como eu observo tudo a meu redor. Daí entra um pouco de tudo, pois muitas das coisas que eu passo podem servir para quem escuta minha música”, explica Juan ao destacar ‘Tremor Essencial’, música que fala sobre depressão. “Outras pessoas passam ou já passaram pelo mesmo e pode ser uma coisa confortável. Acho que a composição tem esse caráter também”.

O modo como mescla as letras cantadas em português e espanhol também causa um efeito bastante positivo em quem escuta suas músicas. “Eu vejo que causa bastante curiosidade. O Brasil não é uma ilha dentro do continente, então é legal a gente conhecer as culturas que são tão próximas territorialmente e também sentimentalmente. Povos de luta, de alegria. Cada dia ouvimos mais músicas em espanhol, latinas, apesar do domínio da língua inglesa. Eu vi que essa mistura pode ser muito interessante. Mas tem uma coisa de sangue nesse ingrediente”.

Recentemente, Juan De Las fez uma música de um poema da amiga Rosinha Moraes. “Ela me mostrou no livro, uma compilação de poetas latinos publicada na Argentina em que ela foi a única brasileira selecionada e tinha em uma folha o poema em português e na outra a versão em espanhol. Li primeiro a em espanhol e me emocionou muito. Fiquei impactado. Em seguida, li a versão em português e não me bateu tanto”, diz Juan, sorrindo. Dessa linda poesia, surgiu a música “Extravios”, uma de suas canções em espanhol que fará parte do novo trabalho.

Dando murro em ponta de faca

“Gosto de MPB, de Rock Latino e também de Silvio Rodrigues. Já ouviu? É divino!”, conta Juan, entusiasmado. O jovem músico também tem achado “lindo demais” o disco solo do Teago Oliveira, vocalista do Maglore, e “sensacional” o novo do Ozzy. “É o que tenho ouvido ultimamente, além, é claro, da música dos meus amigos, Victor Cali, Carbônica, João Perreca e Os Alambiques, As Despejadas. Mó galera”.

Completamente envolvido com a cena independente e alternativa de Guarulhos, Juan De Las acumula  uma trajetória bastante interessante de participação em eventos cativos da cidade, como as edições do Arrastão Cultural, o Música na Rua do Projeto CLAM, tem grande parceria com o Victor Cali e o Peixe Barrigudo, entre outras

“Talvez, a principal contribuição tenha sido com o Projeto CLAM. Na época, eu tocava com o Instinto Coletivo e procurávamos locais para fazer shows e essa era uma necessidade de várias outras bandas. Nos reuníamos semanalmente na Praça do Rosário e traçávamos estratégias para levantarmos as bandas. Criamos inúmeros eventos, Rock no Posto, Noite Fora do Eixo, Grito Rock e o CLAMdestino na Virada Cultural que foi pesado”, conta. Sempre na linha de frente, Juan também participou da criação de duas coletâneas de bandas novas da cidade, um fanzine (CLAMZine), e uma revista contando a história do rock em Guarulhos. “Foi bem enriquecedor, um aprendizado para mim e todos que faziam parte. Dando murro em ponta de faca, sempre”!

Juan De Las também assistiu a criação do Peixe Barrigudo e foi um dos apoiadores do projeto do Victor Cali e do Joel Dias Filho. “Os caras são guerreiros demais. Minha contribuição era mais de conversas e também algum auxílio na edição de áudio, quando eles me pediam. Depois, fizemos uma parceria para uns eventos, como o Peixe Ao Vivo e o Peixe Apresenta. Foram sempre eventos muito especiais. Além deles darem espaço para eu me apresentar também como artista no canal”.

Feliz em contribuir com a galera da cidade, Juan é grato pela ajuda que também recebeu: “Já fiz participação especial em shows do Carbônica, João Perreka e Os Alambiques, Luneta Vinil, Marcos Robson e Alpha Roots, e também já fiz parte da banda do Warley Noua, e ainda toco com o Victor Cali. A gente tá sempre conectado. Eles sabem que podem contar comigo e eu com eles”, comemora.

Entre idas e vindas, Juan aproveita o período de quarentena para focar no lançamento de vídeos semanais em seu canal no YouTube, que ele vem alimentando intensamente desde 2015, com material gravado no Estúdio da Casa CLAM, com a colaboração do Leandro Sousa, sua cunhada Gabriela Macedo e de sua esposa, Camila Macedo.

“Além das minhas músicas autorais e covers, vai rolar o ‘cover dos amigos e também uma sessão de vídeos para falar sobre equipamentos, especialmente de guitarra”. Em seu canal, também é possível encontrar versões de artistas como Rita Lee, Milton Nascimento, Jorge Drexler, Roberto Carlos, Belchior, e muito mais. “O critério é gostar da música. Não vou tocar algo que está na moda só por like, se eu gostar do som e ainda achar link com o meu trabalho, é perfeito. Para Lennon e McCartney, por exemplo. É sensacional poder cantar ‘Eu sou da América do Sul’”, vibra.

Juan De Las por ele mesmo

Convidamos Juan de Las para comentar algumas de suas composições, as histórias que desencadearam os versos, as lembranças de momentos altamente criativos, confira:

Navio (2020)

“Navio começou como uma música instrumental. Estávamos Victor Cali, Fr3elex Machado e eu ensaiando para um show na Escotilha, em São Paulo. Era outubro de 2018, dia do segundo turno da eleição presidencial. Ficamos muito pra baixo com o resultado da eleição. Soubemos da notícia quando estávamos fazendo um break pra tomar uma água. Quando voltamos, peguei a guitarra e comecei a dedilhar os acordes e fui prontamente seguido pelos caras. Daí a música foi crescendo com solos, dinâmica. Foi um momento lindo. Para a nossa sorte, esse dia eu gravei o ensaio com a câmera do celular. Fiquei ouvindo e depois escrevi a letra. Achava que aquele instrumental precisava dessa letra”.

Abrázame, abrázate (2019)

“Abrázame, abrázate é uma conversa comigo mesmo. “Deixarei para trás o que me impede de avançar / Estou em tuas mãos buscando equilíbrio, esperando a sua aceitação. Me dê algo, talvez um destino. Um passado, um presente, uma revelção. Me abrace, se abrace”. (tradução livre). Fiz depois de umas sessões de terapia que me ajudaram demais”.

Tempo (2015)

“Tempo é a primeira canção que fiz para o meu projeto solo. Ela ainda traz um pouco da sonoridade que eu fazia com o Instinto Coletivo. As guitarras bem pesadas, mas a letra com um tema mais leve. Estava no início desse processo e gostei bastante do resultado”.

Alvo da Festa (2018)

“Alvo da festa eu fiz a pedido da minha amiga artista plástica Carol Pimentel, do Ateliê Urbano. Ela perguntou se eu tinha alguma música que falasse de tecnologia, QR Code, para um projeto de arte. Eu disse que não, mas podia fazer. Daí escrevi ela pensando em como nós fazemos o uso do celular e como somos usados”.

Somos todos estrangeiros (2017)

“Somos Todos Estrangeiros é autobiográfica. Eu vejo um mundo onde não temos fronteiras. Já ouvi muito que “estrangeiro vem pra roubar o nosso emprego”. Eu penso diferente, acho que todos tem uma contribuição para a sociedade de qualquer país. O Brasil tem imigração do mundo todo. No Chile também tem as comunidades das mais diversas partes do mundo. Então como pessoas, temos o direito de ocupar, seja aqui ou em qualquer outro lugar do mundo. Ah, é importante também uma menção ao Tony Tornado. Fui ao show “Baile do Simonal”, com os filhos do Simonal no Adamastor e o Tony Tornado fez uma participação. Naquele dia, ele fez um discurso contra a discriminação e falou algo sobre a gente dar as mãos e olhar a sombra, que veríamos a mesma cor. O refrão dela foi inspirado nessa fala dele”.

Fotos: Lidia Martiniano e Gabriela Macedo