Lançamento de trabalhos coletivos destaca criação de arranjos cheios de audácia e inventividade

A criação de trabalhos coletivos, muitos dos quais realizados sem a presença física de seus participantes, tornou-se mais que um grito de esperança, antes, uma maneira de dar vazão à criatividade que desconhece as barreiras impostas pelo distanciamento social e cresce sem precedentes. É assim que o dia 8 de janeiro, primeira sexta-feira de 2021, marca o lançamento das composições Tua Palavra, de Marília Calderón, Matriz, de Claudia Dantas, e Sentimento Urgente, baseado no texto Saudade, de Clarice Lispector, musicado por Fidura Cardial, concretizando um projeto que reúne talentos pra lá de incríveis.

A partir do contexto acadêmico do curso de pós-graduação em Canção Popular da Faculdade Santa Marcelina, o projeto se materializa na elaboração de três arranjos cheios de audácia e inventividade para satisfazer a demanda da disciplina de Produção Musical em Estúdio, do professor Gil Assis.

Ternária, Tua Palavra nos remete aos povos da terra e à ação de lavrar essa terra. O conceito do arranjo partiu da letra da música, que enfatiza a Terra em detrimento da Palavra. As intervenções e passagens com corda de aço solo fazem uma fusão com a guitarra portuguesa e a herança presente no cavaquinho e bandolim. A cantora Naira Marcatto, responsável pela mixagem das vozes e instrumental da música, destacou a importância das habilidades e talentos de cada um dos integrantes como o elemento essencial em todo trabalho de produção musical.

“Concebemos o arranjo coletivamente a partir da escuta e da inserção criativa de cada pessoa. Todo mundo ouviu tudo o que acontecia antes de inserir sua participação. Essa expressão de coletividade quando na realização musical à distância foi essencial para que conseguíssemos chegar a um resultado que imprimisse a vontade de fazer música sobre experiências individuais. Marília, como compositora, foi incrivelmente generosa e aberta nesse sentido.”

A compositora Marília Calderón considera que “dentro das condições técnicas de que dispúnhamos, o resultado foi surpreendente, pois foi feito com muito carinho e generosidade por parte dos participantes”. Marília também destacou a pluralidade de vozes e interpretações no arranjo, que ampliaram os significados da canção.

Trabalho da compositora e cantora Claudia Dantas lançado em 2018, a regravação da música Matriz passou por um processo de reconceituação de suas partes para incorporar a elaboração do arranjo vocal, a partir de elementos da melodia que se repetem. O resultado nos remete à matriz africana, com incursões vocais que conduzem a melodia da canção, vozes ritmadas e percussão em quatro contra três; hemíolas naturais da mãe África, as Marias da periferia e o trabalho pesado e contínuo vêm em forma de um tambor grave.

De acordo com o responsável pela mixagem e arranjador Luís Anselmi, a reelaboração do arranjo a partir de um conceito vocal buscou valorizar as diferenças de timbres e experiências de cada integrante: “Nosso desejo era criar algo completamente diferente do original, mantendo um olhar cuidadoso e especial para a letra da canção. O conceito vocal também permitiu a reprodução dos instrumentos utilizados pela banda na versão original por meio das vozes, e, para que isso fosse possível, a criação de motivos melódicos curtos individuais para cada uma das cantoras, que formaram um riff vocal a cinco vozes, o que foi essencial para ajudar tanto na gravação quanto na edição”, observa Luís, destacando a força da composição, o que permitiu a somatória de diferentes elementos vocais.

Claudia Dantas conta que adorou o resultado alcançado pela equipe: “Conseguimos reinventar a música de um jeito completamente diferente da proposta inicial. Esse foi realmente o intuito quando propus ao grupo a ideia de regravar Matriz, então, decidimos fazer um novo arranjo com vozes femininas que deu lugar ao instrumental da versão original, potencializando o significando da letra e valorizando o potencial vocal da equipe. Tudo isso veio ao encontro da proposta do curso de pós-graduação em Canção Popular”.

Sentimento Urgente, texto de Clarice Lispector que virou música no universo inventivo do compositor Fidura, também ganhou arranjo musical especial, que usa o jogo de presença e ausência, afirmando a tensão da urgência da saudade. O ostinato cria um lugar fixo, um lugar de impotência, enquanto as vozes andam de um lado para o outro evidenciando alguém que está longe. O ritmo ajuda no estranhamento, às vezes enganando o ouvido com uma pausa que nos desloca no tempo.

Uri Dayan, responsável por reunir vozes e instrumental na mixagem do arranjo, explica que, a exemplo da música Panis et Circenses, dos Mutantes, surgiu a ideia de criar uma espacialidade semelhante a uma sala de jantar, com ruídos característicos do ambiente, o que ajudou na definição do conceito da música, aproximando-a da proposta do compositor. “Nessa sala de jantar, há pessoas conversando enquanto jantam, ruídos de talheres, copos e pratos, pessoas ouvindo e tocando uma música que ecoa de um radinho, enquanto alguém cruza esse ambiente da sala em direção ao rádio, uma jovem que “arranha” os acordes da música em seu ukulele. Nesse momento, a banda começa a tocar e é possível identificar o violão, a voz, a guitarra e o próprio ukulele, num crescente sonoro alcançado por meio de camadas que fazem a música crescer”, esclarece Uri.

A cantora Vanessa Longoni, que além de cantar também atuou na produção artística, fala sobre a importância de se construir um conceito, de modo que texto e música possam caminhar juntos. Ela conta ainda que o trabalho teve como premissa um conceito cênico, no qual o roteiro da história desencadeou as escolhas do arranjo da música: “Quando escutamos a música pela primeira vez, entendemos que tínhamos que encontrar um ambiente que pudesse abrigar a história.  A partir dessa construção, texto e história ganharam uma unidade. Como o tema da música aborda a saudade, um sentimento que nos remete também ao momento de pandemia, de não podermos estar juntos, entendemos que a ambiência de uma casa, de um rádio que toca ao fundo, de pessoas reunidas conversando e comendo, dos ruídos de talheres e pratos, eram motes fortíssimos de um cenário que serviu como pano de fundo para a música”.

O compositor Fidura também ofereceu seu olhar sobre o resultado alcançado: “É muito interessante essa capacidade evolutiva de uma criação. Quando li esse trecho do poema da Clarice Lispector em um quadro em um hostel em Recife, passava por um momento emocional que me impulsionou a transformar aquela ideia em canção. De certa forma, acabei me apropriando da criação da escritora, mas é aí que entra essa capacidade de transformar uma ideia”. Sobre o arranjo, Fidura explica que se surpreendeu ao perceber que a energia e força do texto se mantiveram no arranjo, destacando a identidade de cada um dos participantes como o diferencial dessa versão.

Fichas técnicas

Tua Palavra

Marília Calderón | composição

Camila Toledo | vozes

Fidura Cardial | guitarra

Lorenza Pozza | piano rhodes e vozes

Marília Calderón | vozes

Naira Marcatto | bongô e chocalho

Thaís Bonizzi | cavaquinhos, pandeiro e vozes

Arranjo e produção musical coletivos

Naira Marcatto | mixagem, masterização e vídeo

Carla Maio | produção executiva

Matriz

Claudia Dantas | composição

Claudia Dantas, Lara Kodocsa, Luís Anselmi, Paola Calderaro, Sueli Moreira | arranjo e vozes

Luís Anselmi | produção musical e mixagem

Pérola Braz | fotografia e edição de vídeo

Carla Maio | produção executiva

Sentimento Urgente

Fernando Cardial | composição

Uri Dayan e Vanessa Longoni | produção musical

Uri Dayan | mixagem

Rosielle Machado | edição de vídeo

Janete Dalonso | piano

Uri Dayan | violão

Fabrício Gambogi | guitarra

Maria Julia Galavotti | ukulele

Carla Maio | produção executiva

Letra inspirada em Saudade, texto de Clarice Lispector, publicado no Jornal do Brasil, em 1968