Retrospectiva: Rock e maquiagem

Por Mariana Inbar

Nesse artigo, publicado em 20 de agosto de 2015 no site https://petiscos.love/beleza/restrospectiva-de-roqueiros-que-usam-maquiagem/, a jornalista Mariana Inbar faz uma retrospectiva de roqueiros que usam maquiagem, um texto bacana cheio de histórias incríveis sobre o rock’n’roll, confira:

“Vamos fazer um post sobre maquiagem masculina?”, alguém sugeriu na nossa reunião de pauta. “Vamos. Mas sério ou mais teatral?” Foi aí que tudo descambou. A gente começou a pensar em Marc Bolan, David Bowie, e pronto: estava decidido que ao invés de falar de corretivos e bases para os meninos, iríamos usar esse momento para relembrar tantos artistas que foram muito além da música para construir uma carreira.

Hoje em dia existe um certo preconceito com músicos que investem pesado em suas imagens. Diz que geralmente isso é uma forma de desviar nossa atenção da falta de talento. Verdade, muitas vezes, mas não absoluta. A maquiagem foi crucial para muitos roqueiros se destacarem e ganharem ainda mais fãs. Tudo começou com Alice Cooper, que lá atrás, em 1971, já se maquiava de forma meio bizarra para subir aos palcos. Ele disse uma vez que sua inspiração foi o filme “Barbarella”, mas Dennis Dunaway, baixista da banda, contou em sua autobiografia que a ideia veio de um pôster de um circo que os dois viram da janela de um quarto de hotel, no qual estava estampado um palhaço bem maquiado, que chamou a atenção de Dennis. Faz sentido, já que os olhos são claramente inspirados na maquiagem de um arlequim. Hoje em dia a gente olha para o rostinho de Alice Cooper e escuta “I’m Eighteen” e até ri de pensar que um dia isso foi considerado som pesado e macabro, mas na época era mesmo: um cara cantando enrolado numa cobra não pegava nada bem com os pais da garotada roqueira do início dos anos 70. Mas qual graça teria se fosse o contrário, né?

Às vezes ele passa um pó ou pancake bem branco no rosto, mas no geral os olhos e boca são desenhados por cima da pele limpa mesmo, e mais nada. Nada se cria, tudo se copia, ainda mais no rock. E aqui, nesse caso, todo mundo copiou o Alice Cooper. De Kiss a Slipknot, passando por todas as bandas de shock rock da história.

Falando em Kiss, a banda surgiu pouco tempo depois (mesmo só tendo estourado em 1975), com seus integrantes maquiados como quatro personagens: o Catman do Peter Criss, o The Demon do Gene Simmons, o Starchild do Paul Stanley e o Spaceman do Ace Frehley. Nada muito Ziggy Stardust, esses eram apenas os apelidos de palco dos meninos maquiados, que se animaram com o surgimento da cena glam, mas como não eram magrinhos e afeminados (quer dizer, hmm.. Paul Stanley!), preferiram algo com menos glitter. “Teria sido muito mais fácil subir no palco de jeans e camiseta e mandar ‘OK, somos os Ramones!’, e teria sido tão válido quanto, mas não teria sido honesto”, disse Gene Simmons sobre a imagem da banda. O que acontecia na época é o que rola até hoje: são os próprios músicos que se maquiam (relembre o manual do Gene com a sua filha, Sophie), afinal de contas, foram eles que criaram os próprios desenhos, e hoje em dia esse visual é tão reconhecível quanto logos de marcas famosas.

Há uma enorme briga entre os membros originais da banda: Peter Criss e Ace Frehley acham um verdadeiro absurdo outros músicos usarem as maquiagens de seus personagens, mas Paul Stanley e Gene Simmons não dão a menor confiança. A marca-registrada fala mais alto. E rende mais dinheiro, coisa que o Kiss gosta muito. Assim como o Alice Cooper, no Kiss predomina o preto e branco, a excessão do toque verde na maquiagem de Peter Criss e o prateado de Ace Frehley, mas tudo é bem simples de fazer. Combinado com roupas carregadas de cristais, botas plataforma, franjas e peitorais peludos à mostra, poderia ser cafona, mas fica incrível.

Mais ou menos na mesma época, Ney Matogrososso estourou na América do Sul com seus Secos e Molhados, que também usavam maquiagem. Há uma briga enorme sobre quem teria copiado quem – na verdade ninguém nunca achou que o Ney copiou o Kiss, e sim o contrário. Mas o Whiplash, site de música nacional, já acabou com toda e qualquer dúvida em um artigo esclarecedor. Porém, se o Kiss puxava para o glam, o Secos e Molhados tinha um visual mais tribal, com os integrantes carregados de contas, colares de dentes e sementes e muita pena no cabelo do Ney Matogrosso, que fazia uma performance incrível sempre. O Secos e Molhados era muito mais teatral e carregado de drama do que o Kiss, cuja maquiagem era apenas para compor um visual e vender uma imagem, e não adicionar à performance de palco – a não ser no caso do Gene Simmons com seu linguão.

Mas chega de preto e branco: em 1972, David Bowie lançou o melhor disco da história do rock, “Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”, em que assumia o personagem título (que vinha de outro planeta nos avisar que só tínhamos mais cinco anos de vida na Terra). Dos longos cabelos loiros e vestidos com jeito hippie o inglês criou um mullet ruivo e uma maquiagem dourada e vermelha/rosa, colocando a androginia em voga e fazendo o glam rock estourar como uma verdadeira febre buscando inspiração no teatro kabuki e abusando das botas plataforma. Foi David Bowie que jogou glitter, plumas e unhas coloridas no glam rock, e lá para 1975 cantava sobre androginia em “Rebel, Rebel” calçando sandálias meia-pata femininas e usando tapa-olho de pirata.

Depois de Ziggy veio Aladdin Sane e uma das maquiagens mais famosas do rock. A pele bem branca, contorno vermelho, sombra rosa e claro, o indefectível raio vermelho e azul que nascia bem no meio da testa – e que inspirou Lady Gaga e quem sabe Harry Potter? Nessa época, Bowie já estava totalmente íntimo do estojo de maquiagens, e criava um look mais incrível que o outro, como os olhos azuis de “Life on Mars?”. Nos anos 80, a maquiagem ainda se fazia presente, embora de forma mais esporádica. Para “Scary Monsters”, ele adotou o visual do pierrô, e no clipe de “Ashes to Ashes” aparece ladeado de gente como o vocalista da banda Visage, que também usava maquiagem. Foi sua fase namorando com o London Blitz, movimento que estava surgindo. O mais incrível do David Bowie é que tudo tem algum significado por trás. Quem foi a sua exposição “David Bowie Is” sabe que o cantor devora livros, cinema, teatro, cultura folk, absorve tudo e lança sua própria versão.

A maquiagem de David Bowie na época de “Ashes to Ashes” era fortemente influenciada pelo artista alemão Klaus Nomi, com quem ele se apresentou algumas vezes. Mas ao contrário do preto e branco que inspirava terror na garotada (e principalmente em seus pais), David Bowie preferia brincar com gêneros e primar pela elegância.

Junto com David Bowie, surgiu a lindeza cacheada que atendia pelo nome de Marc Bolan, libriano que liderava o T-Rex envolvido em muitas plumas, glitter e montações incríveis. Bowie e Bolan eram amigos desde os anos 60, e é bem difícil dizer quem influenciou quem ali (a amizade era tanta que Bowie é afilhado do único filho de Marc Bolan). Os dois se apresentaram juntos na TV, mas Bolan era menos teatral. Seu caminho era mais o glamour, e menos a história ou algum conceito mais cerebral. Embora o visual fosse afeminado, Bolan não tinha nada de feminino em suas performances.

Era só carão:

Ali mesmos nos anos 70, depois de David Bowie dar o chute inicial na cena glam, vieram artistas que pegaram seu visual e o radicalizaram ainda mais: leia-se New York Dolls e o Dee Snider do Twisted Sister. Pense em blush chinelada, contorno Kardashian, sobrancelha de chola e cara de ressaca pós-balada. Tudo isso, claro, combinado com roupas bem afeminadas no caso do New York Dolls, que podiam fatalmente disputar um lugarzinho lá no RuPaul’s Drag Race. Haja lamê, haja salto alto, echarpe e pink. Dessa leva surgiram Motley Crue e Poison. Prestem atenção no Poison: boca pink, delineador e feminilidade à flor da pele. Umas damas. Mas que passavam o rodo nas groupies, que fique bem claro. O som já havia se afastado do glam rock e virado o tal do “hair metal”. Mas engraçado como a maquiagem persistiu. Olhando o Poison a gente até acha o David Bowie machão. Os biquinhos e feminices eram parte integrante da farofa, que simboliza muito bem a diversão que seria a década de 80, que de perdida não tem absolutamente nada.

Pois então, entramos nos anos 80, e com isso vemos a chegada dos new romantics, que tinham como líder e maior muso o Adam Ant. Os new romantics também eram conhecidos como Blitz Kids, e tinham essa coisa meio namorando com a época da revolução francesa. Adam Ant vivia com sua jaqueta de hussardo (militar de alta patente) e sua beleza pegava um pouco de referências tribais: penas, listra branca cruzando o rosto e olhos bem delineados. Dessa escola eram também Boy George e o Visage – e até o Duran Duran (com Nick Rhode e sua base branca Kanebo), mas foi Adam Ant que mais influenciou o visual do movimento.

Nos mesmos anos 80 estouraram os góticos de coração molinho, predecessores das góticas suaves de hoje em dia. Robert Smith e Ian Astbury eram os líderes do movimento, mas sem dúvidas, quando pensamos em maquiagem gótica, é a de Robert Smith que vem em mente. O batom bem borrado, os olhos pretos, a cabeleira enorme, o blush forte acentuado no meio das bochechas, mas sempre cantando sobre amor… Ian Astbury era menos caricatural e mais galã, com suas camisas estilo piratas, rendadas, e calça de couro, ele ainda esbarrava nos românticos. Já Smith era melancolia pura e mais um ótimo exemplo de uma imagem marcante para uma música excelente. Não seria estranho ouvir The Cure sem pensar em Robert Smith caracterizado cantando aquelas baladas corta-pulso?

Seguindo em frente, é a vez de entrarmos nos anos 90 e quem trouxe a maquiagem de volta para o rock foi Marilyn Manson. E ele o fez usando como referência vários movimentos. Primeiro ele tinha os dois pés lá no shock rock, com visual assustador, autoflagelo, batom borradão como o do Robert Smith, lentes de contato coloridas e unhas sempre pintadas mas descascadas. Em 1998, ele se reinventou e foi beber da fonte de David Bowie, lançando “Mechanical Animals” e o personagem andrógino Starman Omega. Não era cópia nenhuma, era tributo mesmo. Muito glitter, muita cor, muitas botas plataforma, cabelos vermelhos, batom perfeito e unhas vermelhas. É menino? É menina? Não se sabe, e essa que é a graça. Depois disso, já entrando nos anos 2000, ele preferiu voltar para o visual dark porém não tão sombrio. A boca voltou a ser sempre bem escura, a pele sempre branca e às vezes uma sombra colorida, mas o elemento do choque já não é mais tão gritante em seu visual. Obrigada, Marilyn Manson, por não subir no palco de jeans e camiseta nunca!

Do outro lado do oceano, lá na Inglaterra, eram os Manic Street Preachers, que subiam aos palcos com Richey James e Nicky Wire maquiadíssimos. Richey também gostava de se autoflagelar, tinha um pulso político muito forte em suas letras e um problema sem fim com as drogas. Em 1995, ele sumiu, e hoje é considerado morto – mas ninguém sabe de seu paradeiro. Tanto ele quanto Nicky sempre foram mais afetados e extrovertidos do quarteto, e sabiam que tinham pinta de rockstars de nascença – algo que exploraram muito bem desde sempre em seus looks. Eram como os portavozes da banda e a maquiagem só confirmava essa mensagem, embora Richey James sempre se achasse mais parecido com um mineiro que esqueceu de tomar banho do que com um roqueiro.

O visual de Nicky Wire (acima à direita, e abaixo, hoje em dia) tinha muito a ver com suas influências, essencialmente David Bowie e Morrisey. Fora isso, ele sempre disse ter um relacionamento muito intenso com sua mãe, e que também por isso, para ele aquele visual lhe cabia muito bem. Hoje em dia Wire ainda aparece maquiado, porém mais punk do que glam. Talvez esteja ali no meio do caminho!

Para concluir essa coletânea de maquiados do rock, a gente fecha como começou, com os filhotes do Alice Cooper. Entre as bandas de black metal, muito mais pesadas do que o som que lhes deu origem, a maquiagem é quase regra. Hoje em dia, são das únicas que realmente ainda investem no visual para contribuir com o som. Das bandas mais mainstreams do black metal está o Ghost, uma mistura de Darth Vader com Vaticano e maquiagem de caveira do vocalista. Essa turma adora cuspir sangue, fazer caras de mau e de suave não têm absolutamente nada. O documentário “Metal: A Headbangers Journey” faz um bom retrato do grupo logo no fim do filme. Seus seguidores são bem extremos, e já tacaram fogos em algumas igrejas na Escandinávia (a meca delas é a Noruega). De repente as maquiagens ficaram até mais macabras, não? Bom, ta aí, rende um make pro Halloween.

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