Adriano Guerra: “Meu pai foi minha inspiração e plantou a semente para eu me tornar um luthier”

Especialista conta que atividade que começou como um passatempo se tornou sua profissão

Em 1998, o pai de Adriano (“seu” Vicente) pegou uma viola caipira emprestada de um amigo e fez uma cópia. Dois anos depois, esse instrumento foi dado de presente para Inezita Barroso, que apresentava o “Viola, Minha Viola”, na TV Cultura, que fez questão de deixar a viola em exposição durante uma edição do programa. O “seu” Vicente nunca mais fez outro instrumento parecido, mas aquele feito marcou seu filho para o resto da vida.

Aos 14 anos, muitos jovens sonham em montar um banda e se transformar em um grande astro da música. Talvez, essa tenha sido a percepção que Adriano Guerra teve ao ganhar, nessa idade, um contrabaixo do pai, “seu” Vicente.

No ano seguinte, esse instrumento ganhou a companhia de um violão e de uma viola caipira. Hoje, aos 39 anos, Adriano diz que essa vontade ficou para trás. Não que ele não tenha se esforçado, pois garante ter se empenhado, ao longo de dez anos, para ganhar a vida como músico.

“Mas, foi tudo bem amador e nunca me dediquei de verdade a estudar música e me aprimorar como instrumentista”, revela.

Em contrapartida, uma outra habilidade que, a princípio, era um simples passatempo, se transformou na sua principal aptidão: o ofício de luthier. Para quem não sabe, este é um profissional especializado na construção e no reparo de instrumentos de corda com caixa de ressonância (guitarra, violino, etc.).

Na verdade, tudo começou há centenas de anos e muitos desses artesãos não só tiveram seu trabalho reconhecido em vida, como também cravaram seus nomes na história da arte. Entre eles se destacam Antonio Stradivari (construtor de violinos), Antonio de Torres (construtor de violões), Orville Gibson (fundador da Gibson), Robert Benedetto (construtor de guitarras archtop).

“Não foi uma coisa que surgiu da noite para o dia. Primeiro, era um trabalho de meio período, que depois virou o trabalho principal. Eu montava e desmontava, trocava as peças dos meus próprios instrumentos. Então, posso dizer que o começo foi meio sem perceber”, afirma.

Presente

Desde cedo, Adriano se familiarizou com as máquinas e ferramentas básicas de marcenaria e serralheria da oficina que havia em casa, de onde eram confeccionados bancos para jardim, guarda-roupa, sapateira, entre outros objetos.

Por volta de 1998, ele conta que o pai pegou uma viola caipira emprestada de um amigo e fez uma cópia. Dois anos depois, um músico que trabalhava no programa “Viola, Minha Viola”, de Inezita Barroso, na TV Cultura, se mudou para perto da casa deles e o pai pediu que a viola fosse dada de presente para ela.

“O instrumento ficou exposto no palco numa edição do programa. Meu pai nunca mais fez outro, mas esse feito único certamente serviu para plantar uma semente em mim”, garante.

mãos de Luthier
Foto: divulgação

A partir de então, Adriano passou a dividir seu tempo fazendo manutenções, regulagens e reparos e, por um instante, até chegou a acreditar que pudesse dar conta de tudo. Porém, a demanda por encomendas de guitarras cresceu e, como sempre foi mais atraído pela construção, resolveu focar nisso. Num futuro próximo, ele espera poder trabalhar apenas na confecção de um ou dois modelos de guitarra acústica, conhecida como archtop.

Atualmente, além de ter sua própria oficina, onde fabrica essas guitarras acústicas, há dois anos e meio também trabalha na Klingen Guitars, empresa especializada em guitarras elétricas. 

“Dentro da oficina existe a parte prática, mas o resto do tempo é uma busca constante para aprimorar os processos. Um dia minha mãe, me vendo chegar em casa com material que eu tinha acabado de comprar, me perguntou se eu não sonhava com madeiras. É bem isso: eu acordo e vou dormir pensando nas guitarras. Isso quando eu consigo dormir”, pondera. 

Aprendizado

Segundo Adriano, quando começou a se interessar pelo assunto não havia muitos cursos no país em relação a guitarras e violões. Boa parte do seu aprendizado, então, foi feito de modo informal. Além da experiência em casa, eletrocou ideias com amigos marceneiros, luthiers, torneiros mecânicos e, dessa forma, conseguiu absorver de tudo um pouco, visto que a arte da luteria envolve várias outras áreas. 

“Infelizmente, aqui no Brasil o material literário é muito escasso. Por isso, os livros importados me ajudaram muito. Mas, hoje as coisas estão bem diferentes e o acesso a informação é bem maior. Sem contar o grande número de cursos disponíveis, com destaque para o Superior de Tecnologia em Luteria da Universidade Federal do Paraná”, festeja.

Quanto a profissão, reconhece que, em razão dos momentos difíceis que passou, ser luthier no Brasil é uma loucura. Ele conta que, a maior parte do tempo, muitos luthiers trabalham em outras coisas e, muitas vezes, investem o dinheiro desses outros trabalhos na luteria.

Por outro lado, no ano passado todo o seu esforço e persistência foram recompensados quando entregou uma encomenda feita pelo cantor e compositor Lulu Santos. Assim, conclui que é possível ser luthier no Brasil, pois existem aqueles que, por estarem há mais tempo no ramo, hoje comercializam instrumentos por 20, 30, 40 mil reais cada. 

“Mas, até você conquistar clientes e criar um nome, leva tempo e dedicação. Tenho amigos que não tiram férias há mais de 15 anos. Por ser um meio bem restrito e pequeno, é normal a grande maioria das pessoas não conhecer a profissão. Também, por nunca se perguntarem de onde vem os instrumentos musicais e quem cuida deles, acabam acreditando que toda guitarra ou violão é feito em grandes fábricas”, finaliza.